A decisão da China de impor cotas anuais às importações de carne bovina e aplicar uma tarifa adicional de 55% sobre o volume que ultrapassar esse limite, a partir de 1º de janeiro de 2026, precisa ser analisada com menos emoção e mais realidade. Não é embargo, não é retaliação política e não é ataque direto ao Brasil. É, acima de tudo, exercício de poder de mercado, algo que a China faz como poucos países sabem fazer.
Digo isso porque, ao longo dos anos, vi muitas vezes o agro brasileiro confundir demanda forte com relação estável. São coisas diferentes. A China compra muito, compra rápido e compra barato quando pode. E, quando sente que o jogo está ficando desequilibrado internamente, ela ajusta as regras sem pedir licença.
A justificativa oficial da China é proteger sua indústria doméstica, pressionada por importações crescentes e preços internos mais fracos. Tecnicamente, trata-se de uma medida de salvaguarda prevista nas regras do comércio internacional. Politicamente e economicamente, é uma mensagem clara: o maior comprador do mundo não aceita ficar refém de nenhum fornecedor, por maior que ele seja.
Os números explicam por que essa decisão pesa tanto para o Brasil. Em 2024, exportamos mais de 1,3 milhão de toneladas de carne bovina para a China. Em 2025, esse volume já se aproxima de 1,4 milhão de toneladas. Isso não é detalhe estatístico, é concentração. Mais da metade da carne bovina exportada pelo Brasil tem um único destino. E toda concentração, cedo ou tarde, virá vulnerabilidade.
- Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News!
É verdade que o Brasil ficou com a maior cota individual, estimada em cerca de 1,1 milhão de toneladas por ano. Isso mostra que a China não quer abrir mão do fornecedor brasileiro. Mas também deixa evidente onde está o limite. A partir dali, a tarifa de 55% não é simbólica: ela mata a operação. Fora da cota, a exportação deixa de fazer sentido econômico.
Aqui está o ponto que, na minha avaliação, precisa ser dito com clareza: o erro não é da China. O erro é nosso quando acreditamos que um mercado comprador, por maior que seja, vai absorver volumes crescentes indefinidamente sem reagir. Nenhum país age assim. A China apenas faz isso de forma mais explícita e organizada.
O impacto agora será sentido na prática. Frigoríficos e exportadores terão de escolher melhor quando e quanto embarcar. O planejamento deixa de ser automático. Quem errar o timing pode vender com margem zero, ou negativa. Parte da carne pode acabar buscando outros mercados ou pressionando preços internos, ao menos no curto prazo.
Essa decisão também desmonta um discurso confortável que o agro brasileiro adotou nos últimos anos: o de que basta produzir mais que o mercado resolve. Não resolve. Produção sem estratégia comercial vira risco. E estratégia, neste momento, significa diversificar destinos, investir em valor agregado e reduzir a dependência de volume puro.
A China continuará sendo um cliente central do Brasil. Mas nunca foi, e não será, um cliente dócil. O recado agora veio por meio de uma tarifa. Quem preferir tratar isso como um episódio pontual pode até ganhar tempo. Mas quem lê o mercado sabe: o mundo está ficando mais estratégico, mais protecionista e menos tolerante a dependências desequilibradas.
O mercado segue aberto. O jogo continua. Mas ficou mais duro, e mais exigente. Ignorar isso, desta vez, pode sair caro.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
O post A China apertou o botão de controle sobre a carne apareceu primeiro em Canal Rural.